A chamada Inteligência Artificial (IA) – em especial, as chamadas IAs generativas – tem mobilizado muitos debates em diferentes esferas políticas e sociais. No âmbito acadêmico a disseminação do uso de ferramentas de IA vem impactando os modos de pensar e praticar pesquisa, docência, extensão e produção intelectual. Em relação a essa última – a produção intelectual – é notável o quanto a autoria e a escrita acadêmicas, temas tão caros à antropologia, vêm sendo confrontadas neste momento. Entretanto, a despeito de sua aparente ubiquidade, os mecanismos, infraestruturas e linguagens tecnológicas que sustentam as ferramentas que levam o nome de IA, bem como as implicações e consequências de seu uso, ainda são relativamente desconhecidas tanto por docentes quanto por estudantes em todos os níveis de formação.
Em março de 2026, o CNPq, por meio da Portaria 2664, lançou a Política de Integridade na Atividade Científica, em que normatiza o uso de inteligência artificial no trabalho científico, instituindo a necessidade de que pessoas pesquisadoras declarem formalmente quais ferramentas/plataformas, em quais etapas e para quais finalidades utilizaram IA em seus projetos. Fica, ainda, vedada a apresentação de conteúdo gerado por IA como de autoria humana.
Ao mesmo tempo em que reconhecemos que tal portaria é um primeiro passo importante, entendemos que o tema da IA deve ser objeto de políticas públicas mais amplas, que não apenas responsabilizem individualmente as pessoas pesquisadoras, mas que também colaborem para a estruturação do acesso e apropriação desses recursos pela comunidade acadêmico-científica. Nesta moção, dirigida à comunidade antropológica e das Ciências Sociais de forma mais ampla, defendemos que as ferramentas normativas devem regular, mas também promover debates e formação para as melhores práticas científicas, políticas e sociais possíveis em torno do uso da IA. Nesse sentido, apresentamos três recomendações:
1) Com o fito de aprimorar o disposto na Portaria 2664/CNPq, na declaração formal de uso de IA em produções acadêmicas, incluir os prompts (os “comandos” ou “instruções” que o pesquisador escreve ou dita a uma ferramenta de IA ordenando ou solicitando a realização de uma tarefa) e os “Modelos de Linguagem de Larga Escala” ou LLMs (do inglês, Large Language Models) geradores. Mesmo seguindo tutoriais ou instruções padronizadas, ao acessar ferramentas de IA generativa cada pessoa usuária produz uma combinação algorítmica particular em função de como seus objetivos, interesses e pressupostos pautam sua interação com os modelos de IA e as bases de dados. Isso permitirá maior transparência dos procedimentos utilizados para se chegar aos resultados apresentados.
2) Formulação de uma política pública de letramento digital e provimento de infraestruturas com foco em IA para a comunidade acadêmica e universitária. Como toda forma de tecnologia, ferramentas de IA são artefatos opacos, politicamente situados e que operam a partir de interesses de grandes empresas de tecnologia, as chamadas “Big Techs”. A premissa, aqui, é a de que seu uso deve ser instrumental e no melhor interesse do desenvolvimento acadêmico-científico, mais do que por sua “inevitabilidade” ou inexorabilidade, como propalam suas campanhas publicitárias e apologistas nas mídias sociais. Dessa forma, tal autonomia só poderá ser plenamente exercida se tivermos sistemas e infraestruturas (data centers, “nuvens digitais”, sistemas operacionais) sob jurisdição soberana de instituições que compõem o campo acadêmico-científico brasileiro, via política de Estado.
Por fim, como nos alerta a literatura crítica sobre inteligência artificial, 3) defendemos a “recusa estratégica” (da Hora, 2025), em que cada pessoa possa escolher ter seus dados processados, e com quais propósitos, para treinar bases de dados de IA, ou mesmo escolher não utilizar IAs em sua prática acadêmica, combatendo, dessa forma, a naturalização indiscriminada do uso e da presença desta tecnologia.
Goiânia-GO, 17 de julho de 2026.
Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e seu Comitê Antropologia Digital e Divulgação Científica
Leia aqui a nota em PDF.
