Antropologia online aborda o tema tão complexo, como em aparência surpreendente, do ensino da Antropologia em cursos de Educação a Distância (EaD), cuja proliferação gerou perplexidade em muitos de nós praticantes da disciplina, inclusive na Associação Brasileira de Antropologia (ABA), que agiu proativamente, sob a gestão de Andréa Zhouri, fomentando uma pesquisa e a publicação dela resultante, que aqui se apresenta.
A ABA tem buscado, em sua trajetória, refletir permanentemente sobre a formação em nossa disciplina, contando para isso com uma Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, de modo que este esforço inicial de reflexão sobre o que são os cursos de EaD em Antropologia vem se somar a iniciativas pretéritas. Se para muitos a existência de cursos de EaD de bacharelado e de especialização na disciplina de Antropologia gera surpresa, desconforto e suspeita, é importante mencionar que a oferta de cursos em EaD nesses níveis de ensino é uma consequência direta da escolha por abrir cursos de graduação em Antropologia.
Ademais, o Artigo 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996) já previa o ensino a distância. A EaD há tempos é uma realidade em muitos níveis educacionais Brasil afora — e o Conselho Nacional de Educação, em tempos mais recentes, tem feito tal agenda avançar, inclusive no plano da pós-graduação, repercutindo os muitos interesses que nele confluem e se disputam. E de certo tudo isso cresceu em tempos de pandemia e conversão de mil atividades ao mundo digital. Então, qual a novidade? Ser em Antropologia?
A expansão do número de graduados e a relativa retração de mercado de trabalho enfrentada desde 2014–15 pode ser uma das chaves explicativas para o fenômeno, não de todo convincente. Mas, de certo, tal realidade interpela seriamente a ABA quanto ao controle “moral” sobre as bases da formação em Antropologia, a realidade de uma coletividade de profissionais até recentemente marcada pela imagem de si (em muito obsoleta) como uma “comunidade” de “interação face a face”. Coloca à ABA também questões sobre os processos de filiação de novos sócios. Tal é sobretudo mais importante tendo-se em conta aspectos político-jurídicos e acadêmicas envolvidas na atuação pericial de antropólogo, sua interveniência em processos de reconhecimento de direitos. A não regulamentação da Antropologia como profissão, por sua vez, nos coloca ainda mais diante da necessidade de conhecimento dessa realidade.
A publicação nos traz informações fundamentais que ajudarão a fazer avançar o conhecimento sobre tais cursos e seus egressos e é um trabalho que todo praticante da Antropologia no Brasil precisa conhecer.
Antonio Carlos de Souza Lima Museu
Nacional/UFRJ
PPGA/UFF