Esse livro coloca em circulação trabalhos que abrem caminhos de pesquisa e debate ao enfocar precisamente o fazer caminhos: os modos de andar e parar, de fazer-se presente ou ausente, as maneiras de alinhar feixes de deslocamentos ou desalinhá-los, as narrativas que buscam sua matéria em andanças, atraindo por sua vez os passos de públicos ávidos por saber notícias dos mundos. Transitando sem se deixar prender pelos limites sub- disciplinares ou geográfico-culturais, o livro traz relatos etnográficos de periferias urbanas, quilombos, terras indíge- nas, estradas amazônicas, indígenas em cidades, fronteiras caribenhas, camponeses andinos e agrestinos, cidades paradas, romarias, terreiros maranhenses, e por aí afora. Ficamos então sabendo: pessoas (e outros seres) estão andando pelos mundos, escapando às imobilizações. Estão indo e voltando, acelerando ou desacelerando, a pé, de moto, ônibus, carro, barco, bicicle- ta, juntas ou sozinhas. Nisso, observam e buscam entender os deslocamentos próprios e os de outros. E nisso, também, se fazem (e se desfazem) como pessoas, turmas, famílias de sangue ou de santo, comunidades, bairros. Indivíduos e coletivos criam lugares ao delimitar seus pontos próprios de chegada, de saída, de retorno, de parada, de fuga, de permanência, de medo, de sossego ou desassossego, de festa e de memória, lugares de onde se some e onde se reaparece depois de pouco ou muito tempo, ocasionando riso, choro, vergonha, orgulho e muito mais. E quem pesquisa, transita também: andando junto de seus inter- locutores, para nisso ajustar, por algum tempo, os seus tempos, consorciar narrativas, cruzar caminhos.
John Comerford
PPGAS/Museu Nacional/UFRJ